quarta-feira, 23 de abril de 2014

A consciência mítica

Num dos relatos de nossos índios, encontramos o da origem do dia e da noite: ao transportarem um coco, certos índios ouviram de dentro dele ruídos estranhos e não resistiram à tentação de abri-lo, apesar das recomendações contrárias. De dentro do coco escapuliu então a escuridão da noite. Por piedade divina, a claridade lhes foi devolvida pela Aurora, mas com a determinação de que nunca mais haveria só claridade, como antes, mas alternância do dia e da noite. 
Semelhantemente, os gregos homéricos relatam a lenda de Pandora, que, enviada aos homens, abre por curiosidade uma caixa de onde saem todos os males. Pandora consegue fechar a caixa a tempo de reter a esperança, única forma de o homem não sucumbir às dores e aos sofrimentos da vida. 
Observando os dois relatos, percebemos algumas semelhanças entre eles: ambos falam da curiosidade, da desobediência e do advento de um castigo (a escuridão ou os males). Buscando o sentido do mito, podemos pensar que se trata apenas de uma maneira fantasiosa de explicar a realidade que ainda não foi justificada pela razão; no caso, o dia e a noite e a origem dos males. Essa posição a respeito do mito não esconde o preconceito comum de ver o mito como uma lenda, uma fábula, uma forma menor de explicação do mundo. No entanto, a noção de mito é mais complexa e mais rica do que essa posição redutora. Assim, podemos nos referir a um artista famoso como um mito: James Dean como o mito da juventude transviada ou, então, Marilyn Monroe como mito sexual. Em tempos negros, Hitler fez viver o mito da raça ariana, por ele considerada a raça pura, o que desencadeou movimentos apaixonados de perseguição e genocídio. Os contos de fada, as histórias em quadrinhos, sem dúvida nenhuma “trabalham” com o imaginário e os mitos infanto-juvenis: o mito do herói, da luta entre o bem e o mal. Examinando as manifestações coletivas no cotidiano da vida urbana, descobrimos componentes místicos no carnaval, no futebol, ambos como manifestações delirantes do imaginário nacional e da expansão de forças inconscientes. 
A lista possível das conotações diversas que o mito assume não termina aqui. Apenas quis mostrar como um conceito tão amplo e rico não se esgota numa só linha de interpretação. O mito não é algo que ocorreu apenas entre os povos primitivos nos primórdios da nossa civilização, nem apenas entre os gregos da Antiguidade; o mito não é resultado de um delírio, nem uma mentira simplesmente. Quero mostrar que o mito ainda faz parte da nossa vida cotidiana, como uma das formas do existir humano. Tudo o que pensamos e queremos se situa inicialmente no horizonte da imaginação, nos pressupostos míticos, cujo sentido existencial serve de base para todo trabalho posterior da razão. 
Precisamos dar ao mito, ainda hoje, um lugar de importância como forma fundamental de todo viver humano. Ele é a primeira leitura do mundo, e o advento de outras abordagens do real não expulsa do homem aquilo que constitui a raiz da sua inteligibilidade, isto é, o mito é o ponto de partida para a compreensão do ser.

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