quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Diferença entre o homem e o animal

O homem se autoproduz. É dotado de atos inteligentes, ao contrário dos animais que são dotados apenas do reflexo e do instinto, em outras palavras, o animal não inventa o instrumento, não aperfeiçoa, nem o conserva para uso posterior. Portanto, o gesto útil não tem sequencia e não adquiri o significado de uma experiência propriamente dita, pois sua ação não é deliberada, intencional. O trabalho humano é a ação dirigida por finalidades conscientes, a resposta aos desafios da natureza, na luta pela sobrevivência. A partir dessas colocações, concluímos que as diferenças entre o homem e o animal não são apenas de grau, pois, enquanto o animal permanece envolvido na natureza, o homem é capaz de transformá-la, tornando possível a existência da cultura. Quando o filósofo contemporâneo Gusdorf diz que “o homem não é o que é, mas é o que não é”, não está fazendo um jogo de palavras. Ele quer dizer que o homem não se define por um modelo que o antecede, por uma essência que o caracteriza, nem é apenas o que as circunstâncias fizeram dele. Enquanto o animal vive sempre no presente, as dimensões humanas se ampliam para além de cada momento. O homem se define pelo lançar-se no futuro, antecipando, através de um projeto, a sua ação consciente sobre o mundo. Essa é a característica humana mais perfeita e mais nobre: a capacidade do homem de produzir sua própria história. Uma outra diferença que podemos notar também, é que o homem é um ser que fala, a palavra se encontra no limiar do universo humano, pois é ela que caracteriza fundamentalmente o homem e o distingue do animal. Se criássemos juntos um bebê humano e um macaquinho, não veríamos muitas diferenças nas reações de cada um nos seus primeiros contatos com o mundo e as pessoas. O desenvolvimento da percepção, da preensão dos objetos, do jogo com os adultos, é feito de forma similar, até que num dado momento, por volta dos 18 meses, o progresso do bebê humano torna impossível prosseguirmos na comparação com o macaco, justamente porque aquele adentra o mundo do símbolo e ultrapassa um limite que animal algum será capaz. Poderíamos dizer, porém, que os animais também tem linguagem. Mas a natureza dessa linguagem não se compara à revolução que a linguagem humana provoca na relação do homem com o mundo. Se a palavra, que distingue o homem de todos os seres vivos, se encontra enfraquecida na sua possibilidade de expressão, é o próprio homem que se desumaniza. Quanto mais humanos somos, mais temos riqueza no falar, riqueza no pensar e potência no agir.

[Jó Bichara]

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