domingo, 4 de setembro de 2011

A utopia platônica: “A Politéia” (“A República”)

Pergunto a você leitor, será que a utopia platônica seria o caminho para uma cidade justa? Platão parte do princípio de que as pessoas são diferentes e portanto deverão ocupar lugares e funções diversas na sociedade. Na sua utopia, imagina que todas as crianças devem ser criadas pelo Estado e até vinte anos todos mereçem a mesma educação. Então ocorre o primeiro corte, e definem-se as pessoas que, por possuírem “alma de bronze”, tem uma sensibilidade grosseira e por isso devem se dedicar à agricultura, ao artesanato e ao comércio. Cuidarão da subsistência da cidade. Os outros continuam os estudos por mais dez anos, quando ocorrerá um segundo corte. Aqueles que têm a “alma de prata” e a virtude da coragem essencial aos guerreiros deverão constituir a guarda do Estado, os soldados que cuidarão da defesa da cidade. Os mais notáveis, que sobraram desses cortes, pois têm a “alma de ouro”, serão instruídos na arte de pensar a dois, ou seja, na arte de dialogar. Aos cinquenta anos, aqueles que passaram com sucesso por essa série de provas estarão aptos a ser admitidos no corpo supremo dos magistrados. Caberá a eles o exercício do poder, pois apenas eles têm a ciência da política. Como são os mais sábios, também serão os mais justos, uma vez que justo é aquele que conheçe a justiça. A justiça constitui a principal virtude. Sua função é manter a cidade coesa. A proposta de Platão leva a um modelo aristocrático em que o poder é confiado aos melhores. Comparando com a democracia, quando o poder pertence ao povo, podemos analisar que, esse mesmo povo, sendo incapaz de conhecer a ciência política, facilita, através da demagogia (característica do político que manipula, engana o povo), o aparecimento da tirania; esta é a pior forma de governo, exercido por um só homem através da força. Como se vê, a democracia não corresponde aos ideais platônicos porque, por definição, o povo é incapaz de possuir a ciência política. Antes de finalizar, gostaria de expor também um pensamento de Aristóteles, onde ao examinar os diversos tipos de governo, conclui que o valor de um regime político não está ligado ao modo de distribuição do poder, pois são igualmente bons os governos de um só (monarquia), de um pequeno grupo (aristocracia) ou do povo (democracia moderada ou república), desde que tenham por objetivo o interesse comum. Se isso não ocorrer, essas mesmas formas se tornarão desviadas, corrompidas, perversas: tiranias, oligarquia e demagogia. Pensemos, será que ao invés do sistema democrático atual, tivéssemos um modelo aristocrático, viveríamos num país melhor ?

[Jó Bichara]

Colunista: Jorge Bichara Netto
Coluna: Arte em Vida
Veículo: Folha Notícias

2 comentários:

  1. Muito bom! Tava precisando. Meu marido foi desafiado a combater a Teoria Politica de Platão e não estava sabendo como começar. Excelente reflexão!

    ResponderExcluir