segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Os paradoxos do amor

O exercício do amor é conquista da maturidade. O amor, sendo o desejo de união com o outro, estabelece um tipo de vínculo paradoxal porque o amante (ser que ama) cativa para ser amado livremente. O amor imaturo, ao contrário, é exclusivista, possessivo, egoísta, dominador. Não é fácil, porém, determinar quando o poder exercido pelo amor ultrapassa os limites. A força do amor está na atração que um exerce sobre o outro. O ciúme exacerbado é o desejo de domínio integral do outro. Marcel, personagem de Proust na obra Em busca do tempo perdido, inquieta-se, varado de ciúme até dos pensamentos de sua amada Albertine. Só descansa quando a contempla adormecida... Etimologicamente, ciúme significa "zelo": o amor implica cuidado e temor de perder o amado. Mas isso não justifica que o "zelo" obstrua a liberdade do outro. Há outro paradoxo no amor: ele deve ser uma união, com a condição de cada um preservar a própria integridade. Faz com que dois seres estejam unidos e, contudo, permaneçam separados. Alter em latim significa "outro". Manter a alteridade é permanecer outro, é evitar a fusão. Respicere, em latim, significa "olhar para", ou seja, o respeito é a capacidade de ver a pessoa como tal, reconhecendo sua individualidade singular. Isso supõe a preocupação com o crescimento da pessoa como ela é, e não como queremos que ela seja. O amor maduro é livre e generoso, fundando-se na reciprocidade, não na exploração: o outro não é alguém de quem nos servimos. Na mitologia grega consta que um assaltante chamado Procusto aprisionava os viajantes e os adaptava a uma cama de ferro: se eram pequenos, os alongava; se eram grandes, os mutilava terrivelmente para que diminuíssem de tamanho. Quantos tiranos Procustos encontramos nos mais "ternos" namorados, ansiosos por adaptar o parceiro à sua própria medida! O não saber viver a ambigüidade dessa experiência leva certas pessoas a procurar a fusão com o outro, da qual decorre a perda da individualidade, ou a recusar o envolvimento por temer essa perda de si mesmo. O risco do amor é a separação. Mergulhar na relação amorosa supõe a possibilidade da perda. Quando a perda é grave, a pessoa precisa de um tempo para se reestruturar, pois, mesmo quando mantém a individualidade, o tecido do seu ser passa inevitavelmente pelo ser do outro. Há um período de "luto" a ser superado após a separação, quando, então, é buscado novo equilíbrio. Uma característica dos indivíduos maduros é saber integrar a possibilidade da morte no cotidiano da sua vida. No entanto, nas sociedades massificadas, onde o eu não é suficientemente forte, as pessoas preferem não viver a experiência amorosa para não ter de viver com a morte. Talvez por isso as relações tendam a se tornar superficiais, e é nesse sentido que o pensador francês Edgar Mori afirma: "Nas sociedades burocratizadas e aburguesadas, é adulto quem se conforma em viver menos para não ter que morrer tanto. Porém, o segredo da juventude é este: vida quer dizer arriscar-se à morte; e fúria de viver quer dizer viver a dificuldade".

[Jó Bichara]

Colunista: Jorge Bichara Netto
Coluna: Arte em Vida
Veículo: Folha Notícias
http//portal.folhanoticias.com.br/

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